Para entender melhor peço que você ligue a sua televisão mental, de preferência as imagens em preto e branco, e junto comigo assista agora uma ficção que não é cientifica:
A data, 27 de janeiro de 1980, um sábado em Suzano/SP. “Há uma hora antes da largada da corrida São Sebastião, um garotinho de 14 anos, sentado na guia à beira da calçada, aguarda para entrar no ginásio e se preparar para a largada, enquanto isso o menino observa a movimentação ao redor e escuta uma pergunta reverberar pelo ar em uníssono. “Quem irá ganhar a corrida de São Sebastião. Quem será que virá? ”
O menino, simples de tenis conga, meia do colégio enquanto amarra os cardaços aparece um adulto e rapidamente passando-lhe a mão na cabeça diz brincando: “Menino amarre esse tenis direito para não cair hein... e vamos lá para a largada!”
Naquela época as inscrições eram feitas na hora até minutos antes da largada e ficava difícil saber quem iria de repente aparecer. Sempre era uma surpresa e aguardar os favoritos, que eram muito conhecidos pelos corredores, fazia parte do clima.
O menino observa, e, como Moisés aquele homem passou entre os outros atletas, que o cumprimentaram abrindo caminho e comemorando. Logo todos começaram a comentar: “A corrida vai ser boa o Bergara está ai! Eram muitos os favoritos naqueles dias, mas Bergara se destacava era quase imbatível, os campeões eram ídolos nas provas. Os demais participantes eram também competitivos, quase todos representavam uma agremiação ou equipe e disputavam acirradamente os troféus ofertados. Bem diferente dos dias de hoje era muito difícil encontrar corridas que premiavam com dinheiro e os atletas que estavam iniciando eram rapidamente reconhecidos pelos demais, correr naqueles tempos era quase como fazer parte de uma grande família e tirando a São Silvestre, Mini Maratona da Independência Gazeta Esportiva, raramente uma corrida ultrapassava 500 inscritos. O esporte das ruas crescia lentamente por isso era fácil saber quem estava chegando.
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| Bergara - O Audaz |
O que mais havia naqueles dias eram disputas acirradas, eram muitas corridas dentro da corrida, os corredores eram, em sua grande maioria, competidores, hoje mais de 80% das corridas de rua são participantes preocupados apenas em completar, correm pela qualidade de vida.
Naquela prova em Suzano a largada foi às 9 horas, numa rua de paralelepípedos, logo de saída uma reta enorme com uma pequena subida no após 8k retornava para a entrada do clube.
O campeão, foi ele que eu reconheço como o AUDAZ. Edson Bergara! Depois daquele dia presenciei inúmeras vitórias de Edson, que evoluiu e começou a representar o Brasil no exterior em provas de pista e maratonas internacionais. Em 1983 correu em Honolulu sendo o 2º colocado onde bateu recorde brasileiro da maratona com 2h14m.
A entrevista aconteceu há exatamente um mês e me deixou um sentimento saudosista rever um dos “heróis” das provas de rua nas décadas de 70,80 e 90. Fui recebido em sua casa em Perus, começamos a conversar as 22 horas de uma quinta feira a noite. Acabei saindo com metade do que queria, e retornei no domingo seguinte para finalizar a matéria Edson Bergara – O Audaz.
A entrevista despertou em Edson a vontade de voltar a treinar, e logo no domingo seguinte marcamos um treino de 10k na USP, ele topou e trouxe sua sobrinha Elina Bergara, que também venceu muitas provas naqueles anos dourados. Hoje com 58 anos, Edson fez 10k em 44 minutos, “rodando” como disse ele. Um detalhe, não corria desde 1999. E a surpresa, ele voltará a competir. Então não se surpreendam se apenas poder vê-lo pelas costas numa largada.
Agradecimento.
Por muitos anos acompanhando suas vitórias sem ter a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e também por ter desaparecido das corridas, por mais de 10 anos reencontrar Bergara, um ídolo me fez voltar aos tempos de quando comecei a correr nas provas de rua. Em oração agradeci ao Pai Celestial pelo emocionante presente, reencontrar Bergara para uma entrevista especial para a Revista Contra Relógio. Tudo isso porque aquele garotinho no início do texto era eu. E ao contar isso a ele, Bergara me presenteou com sua camiseta, que ele definiu como “olímpica”, pois com ela ele disputou inúmeras provas internacionais. E em meu aniversário, recentemente ele apareceu e me levou um troféu de 1973 de presente. Receber um troféu de seu ídolo de infância...Isso realmente não tem preço!
Quer conhecê-lo?? Leia a Contra Relógio de outubro.